quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O meu amor não cabe num poema


Elene Usdin


O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitetura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras,e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto
- a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer – é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervesente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele,vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome – é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.

Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

(Maria do Rosário Pedreira)

4 comentários:

  1. o amor, por mais belo e intenso, nunca caberá no - meu - poema.

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  2. Deixei um selo para você no Reino - beijos :)

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  3. esse poema é incrível, não conhecia. linda escolha!

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  4. Olá Zoé,

    é para lhe comunicar que o Noodles, Lamash, Kleen, Shoshanna, Yagami e André Passos, saimos do laranja e criamos nosso blogue de cinema:

    http://sonatapremiere.blogspot.com/

    e um outro, mais variado,

    http://projetochernobyl.blogspot.com/

    como sabe, sua visita será muito bem vinda.

    Abraços,
    Sonata Première

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